Eu, Christiane F., 13 anos,drogada, prostituída... - Kal Hermann e Horst Rieck
Christiane nunca teve uma vida fácil, desde a infância tinha um pai alcoólatra que nunca encontrava emprego e vivia procurando motivos para bater nela, sua irmã ou mãe, por qualquer motivo que fosse, mesmo que fosse ele encontrando os motivos para o ato.

Depois de muito tentar aguentar, a mãe de Christiane acaba saindo de casa e em pouco tempo encontra um novo marido, que não é de todo ruim, mas não agrada a criança que se sente abandonada, alienada e completamente isolada por viver em um mundo em que sua mãe aparentemente não se importa mais com ela e muito menos com a irmã.

O que Christiane acaba optando é por sempre procurar um jeito de chamar a atenção, sendo que na maior parte do tempo ela consegue isso fazendo as pessoas ficarem chocadas com a sua agressividade e grosseria, levando a diversos problemas na escola e no prédio em que mora (prédio em que as crianças tinham praticamente nenhuma diversão e sempre que encontravam algo interessante para fazer, acabavam sendo punidas).

Como quase qualquer pessoa que se torna viciada em drogas, o início de Christiane foi com coisas leves, como medicamentos para insônia e no máximo uma maconha, nunca pensando que ela pudesse avançar para coisas mais pesadas, o que era considerado absurdo e quase nojento em sua mente, já que se sentia tão bem só usando coisas que eram consideradas fracas e que ela poderia "parar a hora que quisesse".

Em pouco tempo toda sua integridade vai indo por ralo, levando ela a ir cada vez para drogas piores, odiando os que estavam na sua frente na escada do vício, achando que eram pessoas perdidas. Mas, quando chegava no mesmo lugar que elas, não pensava que era tão ruim assim, porque com ela seria sempre diferente. Ela não era viciada, usava apenas porque gostava e isso fazia com que ela fosse muito mais forte do que aquelas pessoas magras que faziam praticamente de tudo para conseguir um pouco da sua dose.

Christiane demora para perceber que possui problemas, ela vive olhando as pessoas ao seu redor e achando todas patéticas, percebendo o quanto que estão se desintegrando e alguns até mesmo falecendo.

Sua mãe percebe que a filha se encontra mais distante, mas acha que tudo é coisa da idade e não leva muito em consideração as suas saídas, porque acredita que sua filha está sempre dormindo segura na casa de alguma amiga, e não se drogando por becos e procurando mais e mais dinheiro para suas doses.

Quando Christiane percebe que realmente está viciada e que precisa da droga para sobreviver é em sua primeira cold turkey. Cold turkey é uma expressão utilizada para crises de abstinência, onde as pessoas podem ter alucinações, dilatação na pupila, tremores e suor.

O vermelho daquela lata, entretanto, feria meus olhos. Tinha a boca cheia de saliva. Engolia, mas a saliva voltava, embora eu não entendesse bem como. Depois, desapareceu bruscamente, e minha boca ficou seca e pegajosa. Bebi, mas não passou. Tremia de frio e, logo em seguida, senti um calor horrível e fiquei toda suada. Acordei Detlef, dizendo "Algo está acontecendo". p. 115

Detlef é o namorado de Christiane, um viciado que de certo modo acaba colaborando para levar ela para o buraco, mas sempre com as atitudes de viciado, em que tenta a todo momento aparentar que está tentando proteger quem gosta, mas sem conseguir mudar a situação em que se encontra e levando o outro junto para um lugar sem volta.

A prostituição, no começo, é o desespero pelo dinheiro, mas Christiane tenta sempre contornar a história para mostrar que ela não está se entregando completamente ao seu vício, fazendo as coisas de modo como se ela tivesse quase que fazendo um favor para quem "precisasse" de seus serviços, além de sentir nojo de meninas que faziam de tudo para conseguir o dinheiro das drogas.

Durante o livro vemos o desespero de uma mãe que no início luta com todas as forças para que sua filha se recupere e volte a viver como um ser humano normal, o que dura por um bom tempo até que toda a sua esperança suma e ela largue mão, levando a responsabilidade para um pai que Christiane já não gostava desde a infância, tornando seu tratamento para sair das drogas pior ainda.

São diversas as tentativas de parar com as drogas, sozinha ou junto com o seu namorado Detlef, quase todas passando do mesmo jeito, com eles superando as crises dos primeiros dias, mas assim que se sentiam melhores retornavam ao seu vício, achando que era só para dar uma relembrada e tendo a famosa recaída que muitas vezes vem pior do que antes de você tentar parar de usar.

Christiane F. acaba sendo um livro profundo, nos demonstrando o quanto que problemas, que podemos considerar simples, podem ser completamente distorcidos na mente de uma criança, tornando-a fraca e levando a ir na onda do que a sociedade oferece para ela. Mostrando que a ausência de atenção materna e paterna pode levar os seus filhos a estarem fazendo coisas inimagináveis, sendo tarde quando você percebe e acabando com qualquer futuro que o seu filho poderia ter.

É interessante como não conseguimos ao menos sentir raiva dessa menina que sabia onde estava se metendo, mas que não conseguia parar de seguir em frente, cavando mais a sua cova. Christiane consegue contornar a situação, demonstrando que ela é vítima, como realmente é e como recurso que muitos dos viciados utilizam para que as pessoas não tomem medidas mais drásticas e agressivas.

O livro é recomendado para todas as pessoas, independente do gosto literário e seria muito interessante adolescentes lerem, talvez o impacto fosse mais forte lendo um testemunho tão repleto de detalhes ao invés de palestras com imagens que pode se tornar distante a pessoas de idades que acham sempre que nada pode acontecer de ruim a eles.

Para demonstrar, e finalizar a resenha, o tamanho da falta de noção de convivência e absurdo de vício que uma pessoa pode chegar, o melhor é colocar um trecho:

De pé, diante do espelho, preparei a ansiada picada. Em uma dose especial, porque tinha da "cinzenta". Chamávamos assim por oposição à branca, de cor branca ou levemente acinzentada, mais comumente encontrada no mercado. A "cinzenta" é um pó cinzento, salpicado de verde, heroína particularmente impura, ma que provoca um  flash alucinante. Age sobre o coração e é preciso fazer a dosagem com muito cuidado: se se injetar demais, morre-se. Mas eu estava tanta vontade daquele superflash...
Enfiei a agulha na veia, aspirei, e o sangue subiu logo depois. Havia filtrado muitas vezes minha "cinzenta", mas ainda tinha um monte de sujeira. Pronto: a agulha entupiu. O pior que poderia acontecer era exatamente a agulha entupi bem na hora, pois se o sangue coagulasse na seringa, não havia mais nada a fazer, seria preciso jogar fora a dose.
Apertei com tosas as minhas forças para fazer passa a sujeira pela agulha. Tive sorte, funcionou. Acionei, mais uma vez, a seringa, para injetar até a última gota. A agulha voltou a entupir. Fiquei furiosa. Faltavam de oito a dez segundos para eu atingir o flash. Apertei com todas as minhas forças. A agulha soltou e o sangue espirrou no chão, por todo o banheiro.
O flash foi uma coisa louca. Uma cãibra pavorosa na região do coração. Um milhão de agulhas me atravessavam a pele do crânio. Segurei minha cabeça com as duas mãos, para impedi-la de estourar com as marteladas. Parecia que alguém estava me dando socos. E, de repente, meu braço esquerdo ficou paralisado.
Quando consegui me mexer, peguei o lenço de papel para limpar as machas de sangue. Felizmente a parede do banheiro era laqueada, e foi fácil limpar. Enquanto estava limpando, minha mãe batia na porta. Ela já começava a dar bronca: "Abra. Deixe-me entrar. Por que você fechou a porta? Mais uma mania." p.143

3 comentários:

  1. Li há muitos anos atrás quando eu tinha uns 15 anos mais ou menos. Lembro quena época me marcou muito. è um ótimo livro e eu recomendo, mesmo não lembrando de todo da estória.
    Bjs, Rose.

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  2. Eu comecei a ler um pouco do livro na biblioteca da escola e me apaixonei, a história em si é muito bem explicada pela Christiane, apesar dela sofrer um bocado!

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  3. Li esse livro há muitos anos, lembro que fiquei chocada com algumas partes, porque é verdade, não é ficção... e ela estava ali, tão viva. E faz tempo que aconteceu, imagino como deve ser pior hoje, com drogas ainda mais fáceis de conseguir...

    O filme, apesar de ser um pouco escuro, é também chocante, guardo algumas cenas, não saem da cabeça de jeito nenhum...

    Gostei da sua resenha, bem profunda. =)

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